- O que quer dizer?
- Você fala sozinho demais. Não é só você que faz isso. Nós todos fazemos. Temos diálogos internos. Pense nisso. Sempre que está só, o que você faz?
- Converso comigo mesmo.
- Sobre o que conversa consigo?
- Não sei, sobre qualquer coisa, imagino.
- Vou lhe dizer a respeito de que conversamos conosco. Conversamos sobre nosso mundo. Na verdade, conservamos nosso mundo com nossos diálogos internos.
- Como o fazemos?
- sempre que terminamos de falar conosco, o undo está sempre como devia ser. Nós o renovamos, o animamos com vida, o manetmos com nosso diálogo interno. Não só isso, mas também escolhemos nossos caminhos ao conversarmos conosco. Assim, repetimos as mesmas escolhas várias vezes até o dia da nossa morte, pois ficamos repetindo o mesmo diálogo interno a vida toda, até o fim. Um guerreiro sabe disso e procura parar de falar. Esse é o último item que você tem de aprender se quiser viver como um guerreiro.
- Como posso deixar de conversar comigo mesmo?
- Antes de tudo, tem de usar os ouvidos para aliviar um pouco a carga dos olhos. Usamos os olhos para julgar o mundo desde o dia em que nascemos. Falamos com os outros e conosco sobretudo sobre o que vemos. Um guerreiro sabe disso e escuta o mundo; escuta os sons do mundo.
Guardei minhas notas. Dom Juan riu e disse que não queria que eu fizesse uma coisa forçada, que escutar os sons do mundo tinha de ser feito harmoniosamente e com muita paciência.
- Um guerreiro sabe que o mundo se modificará assim que ele parar de conversar consigo mesmo - disse ele -, e deve estar preparado para esse abalo monumental.
- O que quer dizer, dom Juan?
- O mundo é assim e assim, e tal e tal, só porque nos dizemos que é dessa maneira. Se pararmos de nos dizer que o mundo é tal e tal, ele deixará de ser tal e tal. Neste momento, e, portanto, deve começar lentamente a desfazer o mundo.
- Não compreendo mesmo!
- seu problema é que confunde o mundo com o que as pessoas fazem. Ainda nisso, não é o único. Todos nós fazemos isso. As coisas que as pessoas fazem são os escudos contra as forças que nos cercam, também nos dão conforto e nos fazem sentir seguros; o que as pessoas fazem é muito importante em sí, mas apenas como escudo. Nnunca aprendemos que as coisas que fazemos como pessoas são apenas escudos e deixamos que elas dominem e trantornem nossas vidas. Na verdade, eu diria que, para a humanidade, aquilo que as pessoas fazem é maior e mais importante do que o próprio mundo.
[...]
Um guerreiro sabe dessa confusão e aprende a tratar tudo direito. as coisas que as pessoas fazem não podem, de jeito nenhum, ser mais importantes do que o mundo. E assim o guerreiro trata o mundo como um mistério infindável e o que as pessoas fazem como uma loucura sem fim."
Uma Estranha Realidade, 278
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